Há uma coisa que muitas mulheres com lipedema descobrem tarde demais: o sofrimento que sentem tem nome, tem explicação, e é partilhado por milhares de outras.

Ao longo dos anos, vejo cada uma viver a sua dor em privado, convencida de que a vergonha que sente é uma fraqueza pessoal, de que a culpa que carrega é merecida, de que é a única a evitar a praia, a esconder as pernas, a recusar convites. Foi para mostrar que nada disto é individual que decidi conduzir este estudo. É um padrão. E dar nome a esse padrão é, em si mesmo, um ato de cuidado com a saúde mental.

Chamei ao estudo “Os impactos psicológicos e cognitivos na Mulher com Lipedema”, e apresentei-o na Universidade Autónoma de Lisboa. Aqui, quero falar-te sobre a dimensão que mais me move: a saúde mental de quem vive com esta condição.

Um estudo que dá nome ao que se sente

Ouvi 200 mulheres diagnosticadas com lipedema, através de questionários anónimos. A maioria tinha entre 31 e 60 anos — precisamente a faixa em que a condição já teve tempo de deixar marcas, não só no corpo, mas na relação de cada mulher consigo mesma.

Antes de olharmos para os números, quero explicar-te porque é que eles importam para a saúde mental. Quando não temos nome para aquilo que sentimos, tendemos a atribuí-lo a nós próprias — “sou fraca”, “sou exagerada”, “a culpa é minha”. Ver o próprio sofrimento refletido em dados recolhidos junto de centenas de outras mulheres faz o contrário: mostra que aquilo que sentes não é um defeito de carácter, é uma resposta compreensível a uma condição real. E esse reconhecimento é o primeiro passo de qualquer processo de cuidado emocional.

Os números da dor invisível

O dado que mais me marcou é também o mais direto: 81% das mulheres relataram sentimentos de baixa autoestima, vergonha ou culpa associados ao lipedema. Oito em cada dez. Não é uma minoria sensível — é a norma.

A esse número juntam-se outros que desenham o retrato completo. Mais de metade (52%) referiu que o lipedema afeta a sua capacidade de se relacionar com os outros. Entre os impactos psicológicos e cognitivos assinalados, os mais frequentes foram a ansiedade e o aumento dos níveis de stress — muito acima de todos os outros. E, quando perguntei como tinha sido a experiência emocional do diagnóstico, 89 das 200 mulheres descreveram-na como de “difícil aceitação”.

Repara no que estes números têm em comum: são todos emocionais. Não falam do volume das pernas nem da dor física. Falam de vergonha, de culpa, de ansiedade, de isolamento. Para muitas destas mulheres, aquilo que mais reduz a qualidade de vida não está no corpo. Está na mente, no modo como aprenderam a olhar-se. É por isso que, para mim, a saúde mental não pode ser um acessório no cuidado com o lipedema. É parte central dele.

A culpa que nunca foi delas

De todos os resultados, há um que te peço que leias com atenção, porque explica de onde vem tanta da dor emocional destas mulheres.

O lipedema é uma condição genética e hormonal. Não nasce de falta de disciplina, nem se resolve só com dieta e exercício. E, no entanto, é constantemente confundido com obesidade e com desleixo. O resultado é que, durante anos — em média, o diagnóstico pode demorar até 15 anos a chegar —, muitas mulheres carregam uma culpa que nunca lhes pertenceu.

As palavras das próprias inquiridas dizem-no melhor do que eu alguma vez conseguiria. Uma delas escreveu que, até ser diagnosticada, acreditava que “não conseguir resultados nas dietas e combate à celulite eram culpa minha. Por ser pouco disciplinada e preguiçosa”. Outra descreveu uma adolescência e juventude “de profunda tristeza e vergonha de não conseguir esforçar-me para combater o que me diziam ser gordura localizada”.

Este é o peso invisível de que falo. Não é só o corpo. É uma vida inteira a interiorizar um julgamento errado. E é aqui que o cuidado com a saúde mental faz toda a diferença: porque devolver a estas mulheres a verdade, fazê-las acreditar que a culpa nunca foi delas, é aliviar um fardo que nenhuma dieta jamais poderia esvaziar.

O corpo que se esconde do mundo

Os 52% que dizem ter as relações afetadas não são, para mim, uma estatística abstrata. São mulheres que deixaram de fazer coisas que gostavam, que se retiraram aos poucos da própria vida.

Nos testemunhos que recolhi, o mesmo cenário repete-se de mil formas: “evitar praia e festas”, “não quero sair de casa”, “vergonha de me mostrar durante as relações sexuais”, “a chegada do verão já era motivo para ficar ansiosa”. Uma mulher confessou sentir-se, por vezes, “um monstro”. Outra resumiu o mecanismo com uma lucidez que me custou ler: “sempre culpei o meu corpo de não me conseguir conectar a ninguém”.

Este recolhimento tem um nome em saúde mental — auto-isolamento — e um efeito que conheço bem: quanto mais uma pessoa se afasta, mais só se sente, e quanto mais só se sente, mais difícil se torna voltar. A vergonha isola; o isolamento aprofunda a vergonha. Interromper este ciclo raramente se consegue sozinha. É, muitas vezes, precisamente para isso que existe o acompanhamento emocional.

Porque é que isto importa para ti

Se te reconheces nalgum destes números ou nalguma destas frases, há algo importante que quero que leves deste estudo: não estás sozinha, e aquilo que sentes é legítimo.

Escrevi este trabalho com um desejo: o de “despertar”. De sinalizar que, por trás dos sintomas físicos do lipedema, existe uma saúde mental que merece ser cuidada com a mesma seriedade. Depressão, dismorfia corporal, ansiedade, baixa autoestima: não são exageros nem dramatização. São dimensões reais, que precisam de ser reconhecidas e acompanhadas.

Quero que saibas isto com clareza: cuidar da tua saúde mental não é o que fazes depois de resolveres o corpo. É parte de viver melhor com lipedema, desde já. Porque tu não és o teu diagnóstico, não és as tuas pernas, não és a culpa que te ensinaram a sentir.

Criei a Acolhemente para cuidar precisamente desta dimensão: a emocional, a que os números deste estudo tornaram impossível de ignorar. Se este texto tocou em algo teu, fica comigo em acolhemente.pt. Aqui, a tua dor é ouvida sem julgamento. 💜

Referências

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