Todos os anos, à medida que o calor se aproxima, regressa uma expressão que carrega um peso enorme: “corpo de verão”. Para muitas mulheres, é uma fonte de ansiedade. Para as mulheres que vivem com lipedema, pode tornar-se uma das épocas mais difíceis do ano.

Escrevo este artigo não apenas como terapeuta, mas como mulher com lipedema. Conheço este peso por dentro. Neste texto, falo sobre o que é o mito do corpo de verão, porque afeta de forma particular quem tem lipedema, e como é possível construir uma relação diferente com o próprio corpo.

O que é, afinal, o “corpo de verão”?

O “corpo de verão” é uma construção cultural, não um conceito médico. Descreve um ideal de corpo — magro, firme, sem celulite, sem marcas — apresentado como pré-requisito para usar certas roupas, ir à praia ou expor a pele durante os meses quentes.

Este ideal é, para a maioria das pessoas, inalcançável. É frequentemente resultado de edição de imagem, de genética específica ou de padrões que não correspondem à diversidade real dos corpos humanos. Ainda assim, é interiorizado como meta — e a distância entre o corpo real e esse ideal transforma-se em vergonha.

Porque é que o verão é tão difícil para quem tem lipedema?

O lipedema é uma doença crónica que provoca acumulação desproporcional de gordura, sobretudo nas pernas e nos braços, acompanhada de dor, inchaço e sensibilidade. É uma condição que afeta maioritariamente mulheres e que, muitas vezes, demora anos a ser corretamente diagnosticada.

Quando chega o verão, várias camadas de sofrimento sobrepõem-se:

A exposição do corpo. Roupas mais leves e fatos de banho tornam visíveis as zonas que muitas mulheres com lipedema aprenderam a esconder.

O peso do julgamento. A celulite e o volume associados ao lipedema são frequentemente confundidos com falta de cuidado ou de disciplina — quando são, na verdade, sintomas de uma doença.

A história de tentativas falhadas. Muitas mulheres com lipedema passaram anos a fazer dietas e exercício sem ver resultados, porque a condição não responde a estas abordagens da mesma forma. Isso deixa uma marca profunda de frustração e autocrítica.

O resultado é que, para muitas, o verão deixa de ser uma época de descanso e passa a ser uma época de evitamento — de convites recusados, de fotografias não tiradas, de dias passados a cobrir o corpo.

Uma outra forma de olhar para o corpo

A mudança começa quando se percebe que o problema nunca foi o corpo — foi a régua com que o medimos.

Escrevi, a certa altura do meu percurso, uma carta ao “corpo de verão” que passei tantos anos a perseguir. Partilho-a aqui porque acredito que capta, melhor do que qualquer explicação clínica, o momento em que se deixa de perseguir um corpo ideal e se começa a habitar o corpo real.


Carta aberta ao meu “corpo de verão”

Olá, “corpo de verão”, como estás? Há tanto tempo que não te vejo. Ou será que algum dia cheguei a encontrar-te?

Passei muito tempo a tentar aproximar-me de ti, imaginando como serias. Tentei de tudo. Segui dietas, procurei fórmulas milagrosas, ouvi conselhos que, muitas vezes, só me fizeram mal. E, ainda assim, nunca consegui encontrar-te. Nunca foste só meu.

Vi outras mulheres a dizerem que, finalmente, tinham conquistado “o corpo de verão”. Publicavam fotografias com orgulho, celebravam essa conquista, e eu perguntava-me: porque elas e não eu? O que me faltava?

Foi por isso que decidi escrever-te esta carta. Não porque tenha descoberto que não existes, mas porque percebi algo mais importante: tu sempre estiveste comigo. Sempre exististe em mim.

Quando era mais nova, lembro-me de ir contigo à praia. Tenho fotografias dessa altura. As minhas pernas já eram mais cheinhas, o meu rosto era o mesmo. Nada fiz para te perder — por isso cheguei a esta conclusão: somos um só.

Eu tenho lipedema. Tenho as pernas mais volumosas. Tenho edemas que me incomodam, tenho um volume que não me agrada, tenho celulite que muitos insistem em chamar de “anormal”. Às vezes olho para o espelho e não gosto do que vejo. Outras vezes, nem reconheço a mulher que me olha de volta.

Mas essa mesma mulher é forte. É resiliente. É cheia de alegria e de vida, é inteligente, é capaz, é corajosa. E é esta mulher que me olha de volta. E é essa mulher que merece ser amada.

É por isso que escrevo esta carta a ti e também a todas as mulheres que passam a vida à procura de um corpo perfeito, moldado por padrões irreais que vemos nas redes sociais e na internet.

Sim, o corpo de verão existe. E É EXATAMENTE o corpo que temos.

Com mais ou menos celulite. Com mais ou menos peso. Com mais ou menos volume. Com cicatrizes, marcas, diferenças e histórias.

O único requisito para ter um corpo de verão é ter um corpo.

Não precisamos de padrões para incluir o verão e tudo o que ele traz — fatos de banho, calções, o lugar ao sol ou à sombra, ou nos dois.

Por isso, querido corpo de verão, termino esta carta dizendo-te: Bem-vindo ao MEU corpo. Este é o corpo que EU tenho. É este que eu AMO. É este corpo que me ACOMPANHA todos os dias. E é com ele que vou viver plenamente o MEU verão.


Como construir uma relação mais saudável com o corpo no verão

Fazer as pazes com o corpo não acontece de um dia para o outro, sobretudo quando há uma doença crónica envolvida. Mas há caminhos que ajudam:

Procura um diagnóstico correto. Se te identificas com os sintomas do lipedema, um diagnóstico adequado muda tudo — não só o tratamento físico, mas a forma como compreendes o teu corpo. Muito do sofrimento vem de anos a atribuir a uma falha pessoal aquilo que é uma condição médica.

Distingue a doença da culpa. O lipedema não é resultado de falta de disciplina. Reconhecer isto é o primeiro passo para largar a culpa que tantas mulheres carregam.

Rodeia-te de apoio informado. Um acompanhamento que integre o cuidado físico e o cuidado emocional faz uma diferença enorme. Não tens de percorrer este caminho sozinha.

Questiona a régua, não o corpo. O “corpo de verão” é um padrão inventado. O teu corpo é real. Quando o padrão e a realidade não coincidem, o problema está no padrão.

Conclusão

O verão não devia ser uma época de esconder o corpo, mas de o habitar. Para as mulheres com lipedema, isso implica muitas vezes um trabalho duplo: tratar a condição física e reparar a relação emocional com o próprio corpo, construída ao longo de anos de julgamento e frustração.

Esse trabalho é possível. E começa por uma ideia simples, mas transformadora: o único requisito para ter um corpo de verão é ter um corpo.

Com amor, Valléria.

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