Há uma pergunta que muitas mulheres com lipedema ou obesidade nunca chegam a fazer a si mesmas: e se parte do que me esgota não estiver no corpo, mas dentro de mim?

Passas anos a olhar para o corpo como o problema a resolver: a dor, o volume, o número na balança que não desce mesmo quando fazes tudo certo. E, em silêncio, cresce uma outra dor, que não aparece nos exames: a vergonha de te despires, o receio de ir à praia, a conversa dura que tens contigo ao espelho. Essa dor também é real. E, muitas vezes, é a que mais te limita.
É deste território que a Acolhemente cuida: o emocional, o psicológico, o que acontece dentro de ti enquanto convives com o lipedema e a obesidade. A saúde mental.
Corpo e mente não são dois caminhos separados
Durante muito tempo tratou-se a saúde física e a saúde mental como departamentos distintos, como se o que sentes vivesse num lugar e o que o corpo faz vivesse noutro. Não é assim.
O neurocientista António Damásio ajudou a desmontar essa separação: as emoções não são um ruído que acontece “só na cabeça”, são processos com base no corpo, inscritos na fisiologia. Mente e corpo formam um só sistema, em conversa permanente. Ou seja, a nossa saúde física e mental está totalmente entrelaçada.
Isto tem uma consequência concreta. O stress crónico, a ansiedade e a privação de sono não ficam confinados ao plano emocional, traduzem-se em inflamação, tensão, fadiga, e influenciam o próprio ganho de peso. No lipedema, acredito que nos fatores emocionais e psicológicos como verdadeiros princípios ativos do processo inflamatório: não são um detalhe do quadro, fazem parte dele. E na obesidade a ligação é igualmente direta: a ansiedade, a frustração e o desânimo moldam a relação com a comida, o movimento e o descanso.
É por isso que, aqui, nunca olhamos para o corpo sem olhar para a mulher que o habita.
Muitas mulheres não percebem que a sua questão é, também, emocional
Este é o ponto mais importante, e o mais difícil de reconhecer.
Quando chegas ao fim do dia sem forças para socializar, quando adias mais uma consulta, quando desistes de um jantar porque não sabes o que vestir, é fácil pensar que o problema é o corpo. Mas, muitas vezes, o que te trava é o estigma internalizado: o processo pelo qual absorves como verdade os juízos que a sociedade faz sobre o teu corpo. A sociedade associa o peso a falta de disciplina; tu, sem perceberes, passas a culpar-te por condições que são genéticas, hormonais e multifatoriais. O julgamento que vinha de fora passa a vir de dentro.
Os números confirmam a dimensão disto. Realizei, em 2024, um estudo independente conduzido pela com 200 mulheres com lipedema — muitas delas também a viver também com a obesidade — e 81% relataram baixa autoestima, vergonha ou culpa. Mais de metade referiu que a condição afeta a sua capacidade de se relacionar com os outros. A ansiedade e o stress foram os impactos psicológicos mais assinalados.
O que isso quer dizer? Quer dizer que, para muitas mulheres, o “peso” do lipedema e da obesidade não está apenas nas pernas cansadas e doridas, no volume, ou na falta de simetria corpórea. O “peso” também está na relação que passaram a ter consigo mesmas por causa das emoções que todas estas características também as fazem sentir.
Adiar o cuidado emocional também é um padrão
Repete-se um mecanismo: sabes que precisas de apoio emocional, mas nunca é o momento. Primeiro tens de resolver o corpo, primeiro tens de emagrecer, primeiro tens de “estar melhor” para tratar da cabeça.
É compreensível, porque falar do que dói exige coragem. Mas cada adiamento deixa o sofrimento a crescer sem resposta. Reconhecer este padrão não é motivo para mais autocrítica, é o primeiro passo para o interromper. Sem saúde mental não há corpo saudável. Ponto.
A proposta da Acolhemente
A Acolhemente nasce desta ideia: não basta tratar o corpo se a mulher que o habita continua a sofrer em silêncio. É por isso que existimos em complemento ao trabalho clínico e físico que realizamos na APL – Apoio e Prevenção do Lipedema, para cuidar da dimensão emocional de quem vive com lipedema e obesidade.
Aqui, não sou a protagonista, mas um guia. Alguém que conhece este caminho por dentro e decidiu transformar essa experiência em cuidado para outras mulheres. O nosso trabalho é dar nome ao que sentes e mostrar-te que aquilo que atravessas não é fraqueza nem falta de vontade — é uma dimensão legítima da tua condição, que merece o mesmo cuidado que dás ao corpo.
Porque tu não és o teu lipedema, nem és o teu peso. E não tens de caminhar sozinha.
Se este texto tocou em algo teu, fica connosco em acolhemente.pt — um espaço feito para que te sintas compreendida, exatamente como és. 💜
Com amor, Valléria.
